A DÉCADA DO OCEANO NO SÉCULO DOS MICROPLÁSTICOS

“Se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados da ruptura ou da extinção do sentido de nossa vida, hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda.” Ailton Krenak1

A era do Plastoceno

“Oceanos em 2050 vão ter mais plásticos do peixe”2

Mares e oceanos fazem parte da vida de todos nós, mesmo quando estamos longe da costa. A cada duas respirações, uma depende do oxigênio produzido nos ambientes marinhos. Os serviços ecossistêmicos dos oceanos e ambientes costeiros são muitos: oxigênio, alimentação, transporte, lazer e talvez o mais importante – a estabilidade climática.

No entanto os ambientes marinhos estão severamente afetados pelas atividades humanas, que geram graves impactos nesses ecossistemas. Dentre eles a poluição por resíduos plásticos é uma das mais drásticas.

A produção mundial de plástico cresceu exponencialmente a partir dos anos de 1950. Segundo a Plastic Europe (2019)3 a produção de plásticos no mundo alcançou 359 milhões de toneladas anuais. Dados publicados em 2017 por Geyer e colegas revelaram que entre 1950 e 2015 foram produzidos cerca de 8,3 milhões de toneladas de plásticos primários. Desse total, estima-se que até hoje apenas 9% foram reciclados4. A grande maioria dos resíduos plásticos acaba em aterros sanitários ou lixões e, invariavelmente no meio ambiente. Ações de fragmentação mecânica e dos raios solares resultam na degradação dos plásticos em micropartículas – os microplásticos (MPs).

De onde vêm os microplásticos?

Microplásticos são fragmentos menores que 5 mm classificados em dois grupos segundo sua fonte: primária – fabricados em formatos de grânulos ou fibras, usados como matéria-prima para a produção de diferentes artefatos (de embalagens a peças de avião); secundários – resultam da fragmentação dos polímeros plásticos (tecidos sintéticos, redes de pesca, pneus, entre outros). Os MPs podem ficar tão pequenos que se tornam invisíveis ao olhar humano e geram as partículas de nanoplástico (nano é um milhão de vezes menor que o milímetro).

Entre os MPs mais comuns estão os derivados dos poliésteres com as poliamidas (náilon), poliacrilonitrila (acrílico), polietileno e polipropilenos usados em esfoliantes e pastas de dente. Como identificar as resinas (polímeros) que fazem parte das nossas vidas?

Figura 1: Categorias dos plásticos – aprenda a identificar símbolos e usos6.

O tipo de resina utilizada para cada um dos milhares de produtos fabricados determina a durabilidade e aplicação industrial de cada uma. Controlar a emissão de MPs para o meio ambiente é um desafio complexo. O infográfico a seguir projeta uma estimativa das principais fontes de microplástico no oceano.

Figura 2: Origem dos Microplásticos5

Essas são as fontes primárias. Faltam os dados das fontes secundárias, super importantes, como embalagens que chegam ao mar por descarte indevido, o atrito das redes de pesca e as redes perdidas ou abandonadas.

Qual é a pegada dos microplásticos na biosfera?

Os MPs se tornaram onipresente na natureza: detectados no ar, na água, nos seres vivos, são encontrados do Ártico à Antártica. No oceano formam gigantescas “manchas” densas nos locais de convergência das correntes (giros oceânicos). Como podem ser ingeridos pelo plâncton, entram na cadeia alimentar e têm sido observados em toda a biota marinha bentônica e pelágica. Publicações recentes registraram a presença de MPs em placentas7 e pulmões humanos8. Fato preocupante!!

Figura 03: Giro no Pacífico Norte, conhecido como Great Pacific Garbage Patch6

Diversas reportagens têm revelado a mortandade da megafauna por ingestão de plástico ou enforcamento por petrechos de pesca. Contudo, ainda são incipientes os estudos para entender a interação entre os MPs nos tecidos vivos, a bioacumulação e os impactos ecossistêmicos. Apesar da falta de estudos mais abrangentes, as evidências indicam que esses contaminantes são uma ameaça à homeostase dos oceanos, à manutenção da biodiversidade e à saúde humana.

A preocupação mundial com a poluição por plásticos é tão alarmante que foram classificados como resíduos perigosos pela Lei de Conservação e Recuperação de Recursos dos EUA. Muito tem sido divulgado nas mídias sobre os movimentos de limpezas de praias, rios, fundo do mar – Dia Mundial da Limpeza (Clean Up the World Day), são belas inciativas da sociedade civil e associações não governamentais. As pesquisas tecnológicas e inovações para soluções de resgate dos plásticos oceânicos para melhoria dos sistemas de reciclagem estão na ordem do dia. Porém quase todas essas ações e propostas são voltadas para os resíduos plásticos visíveis. Ainda não se tem notícias de nenhum tipo de tratamento de efluentes eficaz para prevenir ou remediar os MPs que se disseminam todos os dias no meio ambiente.

Um trabalho artigo por Andrea Thompson (Scientific American, 2018)9 revisitou os resultados do ecologista Mark Browne que detectou, por microscopia, partículas de nanoplástico em amostras de sangue de mexilhões azuis. Mark e equipe testaram a hipótese desses animais excretarem essas partículas, mas a hipótese não se confirmou. Foi a primeira evidência da possibilidade de ocorrer a bioacumulação dos MPs. Essas partículas, como os metais pesados, ficam retidas nos tecidos animais e podem ser transferidas por ingestão ao longo da cadeia alimentar até as espécies do topo da cadeia como os seres humanos. Como não são eliminadas podem se acumular nos tecidos ao longo do tempo potencializando danos à saúde.

Figura 04: Partícula de plástico em célula sanguínea de mexilhão azul

Em 2016, um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) informou a presença de microplásticos em até 800 espécies de peixes, crustáceos e moluscos. Pesquisadores da Universidade John Hopkins (EUA), apontam que qualquer europeu que consuma frutos do mar de forma habitual ingere cerca de 11.000 partículas de MPs por ano10. No entanto, os pesquisadores não podem determinar a procedência de cada partícula e, provavelmente, a contaminação pode ter diversas origens. Análises já comprovaram a presença de MPs em amostras de sal, água mineral e cerveja de diferentes países. Embora não se tenha evidências dos impactos dos MPs na saúde humana, o fato dos MPs estarem associados à compostos químicos de fábrica ou se ligarem à toxinas presentes no meio ambiente acende um alerta sobre o risco desses contaminantes para todos os seres vivos incluindo a espécie humana.

Quais os caminhos para prevenir e remediar a poluição por microplásticos?

Conhecer mais as interações entre os organismos vivos e os MPs é fundamental para gerar argumentos robustos que subsidiem os tomadores de decisão e os gestores responsáveis na elaboração de políticas e normas de produção adequadas para minimizar os impactos desses contaminantes. Igualmente importante é investir em processos de remediação para os danos em curso.

Diversos países que estão adotando políticas para reduzir o consumo de artefatos plásticos para diminuir a contaminação. O Reino Unido, os EUA, o Canadá e a Nova Zelândia já proibiram a fabricação de produtos de cuidados pessoais que contenham microesferas.

Em 2017, a Costa Rica anunciou uma estratégia nacional para proibir todos os plásticos de uso único em 2021 visando reduzir a quantidade que acaba no oceano, rios ou florestas. Na África, o Quênia desde 2017 proibiu a produção, venda, importação e uso de sacos de plástico, como Ruanda, que já os proibiu em 2008.

Seguindo o exemplo da Costa Rica, a União Europeia elaborou um acordo provisório para proibir em 2021 o plástico de uso único quando existirem alternativas acessíveis. Caso não existam, o objetivo será limitar seu uso, com normas para a redução do consumo em âmbito nacional e para as obrigações de gestão e limpeza dos resíduos pelos produtores.

Os problemas e as soluções devem ser compartilhados visando as propostas acordadas pelas Comissões das Nações Unidas para atingir as metas da Agenda 2030 com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável para a vida sob a água (ODS 14).

O desafio para vencer o problema dos danos causados pelos plásticos, micro e nanoplásticos é imenso. Mas, todos os esforços de investimentos em pesquisa, estratégias legais para controle da produção dos artefatos plásticos e de mitigação dos danos atuais só alcançarão resultados significativos se toda a sociedade apreender essa consciência e se engajar na implementação das boas práticas.

   Fiquem atentos!

Plástico oxi-biodegradável – é produzido com um aditivo para acelerar sua degradação, mas não se decompõe em até seis meses. O polímero se divide rapidamente em microfragmentos gerando microplástico. Não atendem às normas técnicas nacionais e internacionais sobre biodegradação. Portanto, não é biodegradável11.

Existem diferentes composições de plásticos biodegradáveis no mercado. Mas precisamos entender o que está na formulação. Os biopolímeros, feitos a partir de fontes renováveis – milho, mandioca, beterraba e cana-de-açúcar, dependem de condições de compostagem controladas para serem degradados pelos microrganismos. O chamado “plástico verde”, feito de cana-de-açúcar, não é biodegradável. O processo de produção a partir da cana resulta num polímero – o polietileno – que é igual ao obtido do petróleo: não é biodegradável. Mas há esperança! No Brasil, uma equipe da USP em Ribeirão Preto, chefiada pela Dra Bianca Maniglia desenvolveu filmes plásticos biodegradáveis a partir de matrizes de amido presentes em resíduos agroindustriais de cúrcuma, babaçu e urucum. Vamos aguardar que essa invenção seja financiada para conseguir atender ao setor comercial12.

Texto: Marlise Araújo

Revisão: Cristina Luttner

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Referências consultadas:

  1. Krenak, A. O amanhã não está à venda. 2020, Companhia da Letras, ISBN 978-85-5451-732-8
  2. Fórum Econômico de Davos. 2016. http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2016-01/oceanos-em-2050
  3. www.plasticseurope.org/application/files/9715/7129/9584/FINAL_web_version_Plastics_the_facts2019
  4. Geyer, Jambeck, Law sci Adv 2017; 3 e1700782
  5. Boucher, J. and Friot D. 2017. Primary Microplastics in the Oceans: A Global Evaluation of Sources. Gland, Switzerland: IUCN. 43pp.
  6. Atlas do Plástico – versão digital 2020.pdf – www.br.boell.org
  7. Ragusa et al, 2021. Plasticenta: First evidence of microplastic in human placenta, Environmental International 146, 106274
  8. https://www.plasticsoupfoundation.org/en/2018/03/how-damaging-is-breathing-in-microplastics/
  9. https://www.scientificamerican.com/article/from-fish-to-humans-a-microplastic-invasion-may-be-taking-a-toll/
  10. Smith, M., Love, D.C., Rochman, C.M., Neff, R. Microplastics in Seafood and the Implications for Human Health Current Environmental Health Reports (2018) 5:375 – 386
  11. http://www.recicloteca.org.br/consumo/conceitos-biodegradavel-e-oxibiodegradavel/

12. https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-ambientais/usp-produz-plastico-100-biodegradavel-com-residuos-da-agroindustria/

Este post tem um comentário

  1. Marlise Araújo

    A era do Plastoceno nos conduz ao limite da vida tal como a conhecemos. Precisamos refletir sobre as opções de modelos de produção e consumo, valores sociais, escolhas cotidianas. Entender para proteger a biosfera e o direito das gerações futuras a um mundo equilibrado e saudável.

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