A crise pela CoVid-19 e o futuro da saúde dos oceanos

Os impactos antropogênicos e a pandemia

A pandemia causada pelo n-CoV19 gerou um impacto mundial ainda não quantificado em todas as suas dimensões e amplitudes. As medidas de emergência são cruciais para conseguirmos controlar e diminuir a mortalidade das pessoas atingidas em todos os 185 países com casos confirmado, de acordo com o mapa do Centro Johns Hopkins <coronavirus.jhu.edu/map.html>.

A rapidez com que o novo coronavírus se disseminou pelo planeta, as falhas de decisão quanto à contenção social, a discordância sobre os protocolos de proteção da população e a falta de estoques de material hospitalar para atender às demandas expôs as deficiências do nosso atual modelo econômico. Há anos, os pesquisadores apontam a possível correlação entre as doenças emergentes virais como Ebola, SARS-1, Zika e, agora, a SARS-2 aos impactos antropogênicos que degradam os ecossistemas naturais e causam a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas.

Numa entrevista para o jornal Le Monde, em abril de 2020, o ecologista Philippe Grandcolas, falou sobre o surgimento das doenças infecciosas e a ligação direta com a nossa manipulação da natureza. Segundo o cientista, devemos aproveitar essa crise para analisar os fatores que interferem com o equilíbrio dos ecossistemas naturais para sustentar as condições e diminuir as chances de que novas pandemias dessa gravidade surjam em períodos cada vez mais curtos.

Falando sobre a correlação entre o declínio da biodiversidade e o surgimento de doenças como a CoViD-19, é preciso entender que, apesar dos vírus existirem desde sempre, os ecossistemas naturais têm seus processos auto regulatórios e as epidemias no atual cenário ecológico podem sofrer uma forte influência do declínio da biodiversidade e das mudanças climáticas. Há várias décadas, elas vêm se tornando mais frequentes, mas, até agora, nenhuma tinha tido um impacto tão devastador quanto a da CoViD-19.

A maioria dessas infecções são zoonoses: doenças produzidas pela transmissão de um patógeno entre animais e humanos. Os pioneiros dos trabalhos sobre parasitas os estudam desde o início do século XX. Mas a consciência de sua ligação com a ecologia no sentido científico do termo, data de 40 a 50 anos atrás. Hoje sabemos que não é apenas um problema médico. O surgimento dessas doenças infecciosas está relacionado à crescente modificação dos ambientes naturais. Desmatamos, colocamos animais selvagens caçados de seu habitat natural em contato com espécies domésticas, em ecossistemas desequilibrados, próximos de áreas urbanas. Desta forma, damos aos agentes infecciosos novas cadeias de transmissão que possibilitam mutações, tornando-os capazes de nos infectar.

Segurança sanitária e saúde dos oceanos

Na contrapartida, ao tentarmos aumentar a segurança sanitária para evitar as doenças, muitas normas e procedimentos foram criados ao longo das últimas décadas. Embalagens fabricadas de diferentes tipos de plástico e material médico de diversos tipos são objetos de uso único e devem ser descartados da forma correta. Das quase 280 milhões de toneladas (MT) de plástico primário produzidos anualmente, 146 MT são destinados à produção de embalagens (Geyer, R., Jambeck, J. R., & Law, K. L., 2017 – Our world in data/plastic). Mas, nem sempre as empresas que recolhem o material dão a destinação correta. E milhões de usuários pelo mundo não possuem sistemas de esgoto e/ou coleta de lixo. Ainda existem os que agem de forma irresponsável, sem se preocupar com o destino de seus resíduos. Estima-se que 10% dos descartes em meio ambiente entram nos corpos d’água e chegam ao oceano. Um estudo de 2010 aponta que das 275 milhões de toneladas (MT) de resíduos de plástico geradas em 192 países costeiros, 4,8 a 12,7 MT chegam no oceano. E agora, o que poderá acontecer com os oceanos, após o ainda não mensurado aumento do material hospitalar e descarte plástico cujo destino correto é a incineração? E o descarte plástico inadequado?

Uma reportagem publicada pela Reuters em março de 2020, registra as máscaras de proteção encontradas na costa nas praias de Hong Kong. Os grupos ambientalistas alertam que as máscaras cirúrgicas descartáveis se acumulam nas praias de Hong Kong, ameaçando a vida marinha e os habitats naturais. A maioria da população de 7,4 milhões de Hong Kong usa máscaras descartáveis, mas uma grande quantidade de máscaras não está sendo descartada corretamente. E, provavelmente isso deva ocorrer em várias regiões do mundo. Esses resíduos acabam em terrenos baldios ou ao mar, onde a vida marinha pode confundi-las com alimento, acumulando-se nas praias, juntamente com os habituais sacos de plástico e outros contaminantes.

No Brasil, ainda sem registros do problema neste período de crise, projeta-se, a partir dos dados do lixo marinho registrados nas ações de limpeza de praias, um aumento significativo do descarte nos ambientes costeiros, disparando o risco de propagação do vírus para as pessoas que vivem nessas regiões.

A pandemia e as consequências socioambientais

A disseminação do coronavírus colocou o mundo inteiro em uma situação sem precedentes. Para retardar a propagação da doença e mitigar seus impactos, viagens foram reduzidas e as fronteiras estão sendo fechadas. Os vértices dos transportes estão sendo afetados. As restrições de fronteiras aéreas, marítimas e terrestres reduzem o transporte de cargas e o fornecimento de produtos. Neste cenário, uma série de serviços de abastecimento, incluindo os insumos hospitalares, remédios, alimentos e outros, demandam logísticas mais elaboradas. Muitos setores produtivos estão sendo afetados pela quarentena. Comunidades e pessoas mais vulneráveis, pescadores, catadores, vendedores ambulantes, pessoas em situação de rua são os primeiros e os que mais sofrerão esses impactos sem políticas de atendimento emergencial para sua sobrevivência durante o longo período no qual suas fontes de subsistência ficarem inacessíveis.

No entanto, no meio desse caos, dados ambientais positivos foram registrados. Na China, onde grande parte da energia é produzida a partir da queima de carvão e petróleo, imagens de satélite divulgadas pela NASA mostraram um declínio dramático nos níveis de dióxido de nitrogênio (NO2), um gás altamente tóxico que marca a poluição dos carros e da indústria.

De acordo com uma estimativa do Centro de Pesquisa em Energia e Qualidade do Ar publicada no site especializado Carbon Brief, a quarentena teria resultado em uma redução de 200 milhões de toneladas das emissões de CO2 do país no período analisado.

Paralelamente, o tráfego aéreo mundial, responsável por cerca de 5% das emissões de gases de efeito estufa, também caiu 4,3% em fevereiro, segundo o site Flightradar24, devido ao cancelamento de dezenas de milhares de voos para as áreas atingidas pela pandemia. Toda essa queda de poluentes de efeito estufa que foi registrada em todos os grandes centros urbanos do mundo revelam de forma imbatível os impactos antropogênicos sobre a poluição atmosférica, que resulta no aquecimento global e também na acidificação dos oceanos. Essas consequências são devastadoras para a biodiversidade e segurança das regiões costeiras e insulares pela crescente elevação do nível dos oceanos e a força dos fenômenos como inundações, ciclones, incêndios. Ficou evidente a direção que seguimos com nossos sistemas de produção e padrões de consumo.

Outro dado interessante e não menos significativo foi reportado em diversas áreas de grande atividade turística, ao ser constatada a significativa diminuição de lixo nas praias e de turbidez nos corpos d’água. Na página do Facebook “Venicia Pulita”, moradores compartilharam vídeos e imagens dos canais da cidade de Veneza, que, livres dos milhares de barcos turísticos que costumam percorrer as vias diariamente, voltaram a ser tão claras que se pode observar os peixes nadando. Alguns moradores de Veneza lembram que nadavam nas águas da Lagoa (Laguna di Venezia), mas após o turismo de massa e o aumento correspondente no tráfego de barcos nas últimas décadas, as águas ficaram turvas e muito contaminadas por esgoto.

A pandemia pelo novo coronavírus colocou mais da metade da população mundial em isolamento social, em quarentena, com medo da doença, da morte e das consequências econômicas que se refletirão em todo o mundo por tempo ainda indeterminado.

E o que podemos aprender a partir da crise?

O Acordo Verde e a Economia Azul pós-coronavírus

Que independente de nacionalidade, crença, etnia, estamos realmente interconectados. Aprendemos o quão intimamente nossa saúde depende da saúde do ambiente em geral. Que precisamos trabalhar com a natureza e não contra ela e que isto aumentará nossa resiliência. Se quisermos ser menos vulneráveis a crises futuras, a economia pós-pandemia precisará de uma mudança radical em direção à sustentabilidade ambiental. Para enfrentar as consequências da atual crise em todos os âmbitos, precisamos evitar modelos de negócios insustentáveis.

Num artigo publicado no El País em 09/04/2020, a escritora e documentarista Eliane Brum faz um ensaio sobre a disputa pelo futuro e pondera: “Diante do cenário mundial e das projeções dos movimentos políticos e econômicos pós-coronavírus, até mesmo baluartes da imprensa liberal, como The Economist e Financial Times, ambos nascidos no berço do capitalismo, concordam que é preciso rever a retomada do crescimento econômico. É preciso dar um passo atrás. O Estado deve agir e intervir com políticas sociais como renda mínima e taxação de fortunas, tomando decisões com uma abordagem para um novo contrato social no mundo pós-pandemia”.

Em dezembro de 2019, a Comissão Europeia emitiu um comunicado de intenções chamado Acordo Verde da Europa (The European Green Deal), registrando uma nova estratégia de crescimento para a União Europeia: “Sustentar uma transição da UE para uma sociedade mais justa e próspera, que responda aos desafios colocados pelas mudanças climáticas e pela degradação ambiental, melhorando a qualidade de vida das gerações atuais e futuras. A Comissão convida o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu para aprovarem o Acordo Verde Europeu e darem todo seu peso às medidas que ele contém. Deve orientar os planos de recuperação que abranjam a transição para uma economia mais verde, cuja partilha tecnológica e taxas ambientais sejam baseadas em tributos ambientais mais justos.”

A busca por um mundo mais igualitário e seguro também deve passar pela restauração da saúde dos oceanos através de ações que concretizem os acordos internacionais firmados pelos países detentores das maiores economias financeiras e tecnológicas do mundo. A economia azul precisa estar pautada no conhecimento científico, nos saberes tradicionais e nas demandas da sociedade. Mas acima de tudo, precisa fortalecer sua ética ambiental. As leis de permissão para todos os tipos de mineração, que destroem ecossistemas por décadas, alguns para sempre, devem ser revisitadas com urgência. Consumidores não podem se esquecer dos milhões que não têm o mínimo para sobreviver com saúde e dignidade. É preciso que os planos e programas internacionais de gestão costeira e oceânica sejam integrados à políticas econômicas e compatibilizados aos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação para propiciar, ao máximo, a equalização global da infraestrutura e hábitos que contribuam para a manutenção da homeostase da biosfera.


Texto: Marlise Araújo
Revisão: Regina do Couto


Referências consultadas:

Eliane Brum, El Pais, 09/04/2020 escritora, repórter e documentarista
European Commission, The European Green Deal, Bruxelas, 11/12/2019
Geyer, R., Jambeck, J., Law K. L., Production, use, and fate of all plastic ever made, Science Advances 3(7): e1700782 · julho de 2017   
Johns Hopkins University – Medicine Coronavirus Resource Center – https://coronavirus.jhu.edu/map.html, Acessado em 04/04/2020
Kasha Patel, NASA Observatory, How the Coronavirus Is (and Is Not) Affecting the Environment 05/03/2020. https://earthobservatory.nasa.gov/blogs/earthmatters/2020/03/05/how-the-coronavirus-is-and-is-not-affecting-the-environment/. Acessado em 08/04/2020
Martine Valo, Coronavirus : « L’origine de l’épidémie de Covid-19 est liée aux bouleversements que nous imposons à la biodiversité », Le Monde em 04/04/2020
Our world in datahttps://ourworldindata.org/plastic-pollution. Acessado em 04/04/2020
Reuter, Discarded coronavirus masks clutter Hong Kong’s beaches, trails. https://www.reuters.com/news/picture/discarded-coronavirus-masks-clutter-hong-idUSKBN20Z0PP. Acessado em 08/04/2020
Venice’s famously-polluted canals clear as tourists stay away due to COVID-19, https://www.euronews.com/2020/03/16/venice-s-famously-polluted-canals-clear-as-tourists-stay-away-due-to-covid-19. Acessado em 08/04/2020

Deixe uma resposta